Caderno de Desenhos

9 de ago de 2011

Eu self por mim mesmo.




Vendo esse mini-documentário, me vi no Zeca Pagodinho.
Não sou tão pretencioso de me achar famoso, mas sim pela origem pobre e a luta para se fazer o que quer e o que gosta.

Me trouxe lembranças de um tempo remoto...

Morando no interior de Minas, longe dos grandes centros, sem internet (não existia), era um sonho quase impossível de se realizar meu desejo de ser cartunista. 

Vim de família pobre e não tinha grana pra comprar nada que não fosse o rango e pagar as contas.
Não tinha grana pra comprar "material de desenho profissional", acreditava que era preciso "ferramentas profissionais" para ser bom, mas depois descobri que se o cara for bom mesmo, de verdade, se vira com qualquer coisa que risque. 
Não tinha grana pra comprar papel sulfite então pegava aquelas sacolas de compra, de papel pardo, e desenhava minhas histórias em quadrinhos no verso. Outras vezes, catava panfletos pela rua para ter onde desenhar.
Fiz minha primeira prancheta aos 8 anos de idade, com a cabeceira de uma cama antiga, e as pernas dela com os varões da cama. 
Minha primeira luminária quase me matou - pegou fogo! Era uma lata de óleo com uma lâmpada dentro e o braço dela era de madeira presa com parafusos. Caía à toda hora e esquentava pacas.
Sonhava em ser "desenhista profissional". 
Lembro-me de quando juntei grana durante 4 meses pra comprar uma caneta à nanquim desegraph 0.4, eu tinha 11 anos de idade e trabalhava pintado faixas. E me lembro também da tristeza profunda que senti quando a perdi na escola, dias depois. Seriam mais 4 meses até conseguir comprar outra. 
Lembro-me da alegria de quando comprei minha primeira luminária, que está comigo até hoje sobre minha prancheta e também da imensa felicidade ao ver minha última prancheta (tenho 3) chegando na porta de casa pela transportadora. Comprei uma "igualzinho a do Ziraldo!" - pensei. Isso me trouxe um gostoso sentimento de realização e conquista.

É por isso que vocês me vêem escrever com tanto entusiasmo a cada conquista ou quando elogio o trabalho de autores que admiro. Até aqui, venci todas as barreiras que a vida me impôs, preservando meu amor ao desenho. Eu valorizo tudo porque sei o quanto é difícil de se conquistar as coisas.

Muito bem empregada a frase de Zeca Pagodinho da postagem abaixo: "Essas coisas escolhem a gente. Você não pode dizer: "Eu vou ser artista!". A vida é quem tem que dizer: "Você vai ser artista. Queira ou não queira!" ". 
Adoro pessoas simples, que sabem viver e que, principalmente, sabem QUEM são de verdade. Por vezes, o sucesso sobe à cabeça das pessoas fazendo-as se esquecerem de sua origem e de quem são de verdade.
Às vezes vejo cartunistas, ilustradores e quadrinistas que já têm estrada, arrogantes e metidos à besta, esnobando novatos sem saber que podem estar cometendo um erro gravíssimo: o Novato de hoje pode vir a ser o mestre de amanhã. Detesto esse tipo de gente, que se esquece de que um dia também foram um "zé-ninguém" e que hoje esnoba quem está chegando. No outro extremo está quem chega com a arrogância de quem acha que sabe tudo e não sabe nada.
Em nossa profissão, notem que os melhores chargistas são aqueles que nasceram pobres, lutaram e conseguiram um lugar ao sol. O Porquê? Simples: sentiram a dor do viver e das pessoas sem condições. Conhecem a história não só pelos livros, mas pelo viver.
Quando esse profissional vai fazer a charge, a mente relembra de como a vida não é fácil pra 99% das pessoas deste país (só nas propagandas do governo os pobres se dão bem) e põe ali no papel não só o traço e uma piadinha, mas a história que traz sobre os seus ombros. 
É fácil criar charges, cartuns e quadrinhos quando se está alegre, feliz, de bem com a vida. Mas, e naqueles dias em que o seu mundo está despencando? E Quando tem problemas a resolver? Nesses dias só a experiência te põe de pé pra realizar um trabalho publicável e digno do lugar que você ocupa no mercado.

Trabalhar com desenho é fácil. PENSAR com desenho é que é difícil.

Hoje, sou um cartunista profissional. Tenho meu estúdio montadinho, com o que há de melhor em "material de desenho profissional" e também em tecnologias para me dar o suporte necessário pra executar meu trabalho. Aprendi a valorizar meu trabalho, negociar e cobrar o valor que acho correto por ele, sem aviltar o mercado ou prejudicar meus colegas de profissão.
Ainda não cheguei onde quero, mas estou à caminho. Vou chegar, eu sei. Trabalho muito pra isso. Nada, absolutamente NADA é fácil nessa vida. Mas, o responsável pelo seu sucesso ou não, é você mesmo.

Um grande abraço,
Rico.

-A caricatura que abre o texto foi um presente pro meu 1º livro de charges, "o rico humor de Rico". Hoje acho esse título um tanto pretencioso. :)


17 comentários:

  1. belo texto. fez relembrar um pouco a minha vida, em muito parecida com a sua.A diferença é que só tenho uma prancheta (rsrsrrs)!!
    abração
    Jota A

    ResponderExcluir
  2. ahahahaahahahahah!! boa, JotaA.
    Pobre, quando tem oportunidade, compra tudo em dobro (ou triplo) o que não pôde ter na infância.
    Abração!

    ResponderExcluir
  3. Pretencioso? Manda trocar na próxima edição. Chapa lá: O Pobre Humor de Rico! iuahiuhaiuahiu
    Bração fi!

    ResponderExcluir
  4. Bom demais!
    Pô, nem sei se deveria falar, mas quase chorei velho!!
    Um grande abraço e sucesso
    Queco

    ResponderExcluir
  5. Marquim, toma rumo. paiaço! ahahahahah!!
    Deu certo o lance da net, valeu! :)

    Queco, meu bróder, quem quase chorou agora foi eu. O meu negócio é fazer rir. Ahahahahah!!

    Obrigado pelos comentários e abração procêis!

    ResponderExcluir
  6. Que texto bacana, Rico. Cheio de sinceridade e autenticidade, marcas da sua arte.

    ResponderExcluir
  7. Nossa, Rico, mandou bem também com esse texto!Parabéns pelos desenhos,
    pelas palavras e pelas conquistas!
    bjo grande!
    ^:)

    ResponderExcluir
  8. RICO,
    LINDO TEXTO, RECHEADO DE VERDADES,
    SINCERIDADE E SENSIBILIDADE!
    UM GRANDE ABRAÇO,
    CRISTINA SÁ do blog:
    http://cristinasaliteraturainfantil
    ejuvenil.blogspot.com

    ResponderExcluir
  9. RICO,
    LINDO TEXTO, RECHEADO DE VERDADES,
    SINCERIDADE E SENSIBILIDADE!
    UM GRANDE ABRAÇO,
    CRISTINA SÁ do blog:
    http://cristinasaliteraturainfantil
    ejuvenil.blogspot.com

    ResponderExcluir
  10. Marcão, obrigado. Fico feliz que tenha gostado.
    Rose, minha cara, seguimos em frente. Obrigado.
    Cristina, obrigado.

    Obrigado pelos comentários.
    Um grande abraço!

    ResponderExcluir
  11. Valeu Rico!
    Falou por nós... Muito bonito!
    Abraços

    ResponderExcluir
  12. Olá Rico tudo bem?

    Parabéns pelo excelente texto.

    alem de um grande artista é um grande escritor.

    Vc descreveu até um pouco da minha historia tb hehe...

    No parágrafo em que vc fala de que as vezes é dificil desenvolver um trabalho quando o astral está lá em baixo, é bom frizar que muitas vezes ele vai embora ao termino do mesmo, como que por encanto.( não sei se funciona com assim com vc.)
    Acho que por conta daquele momento solitário que ficamos ali criando e vagando momentâneamente pela nossa propria conciência.

    Grande abraço.

    ResponderExcluir
  13. Esse texto é muito "rico", com o perdão do trocadilho. Textos assim, fazem pessoas como eu não desistirem.
    Abraço.

    ResponderExcluir
  14. Valeu, Rico,tu também é bom nos textos,cartunista completo.
    Amancio.

    ResponderExcluir
  15. Fala, Alves! Seguimos em frente, meu bróder! :)

    Cristiano, tudo certo? Quem trabalha com criação só tem o processo um pouco diferente, mas no geral é parecido mesmo.

    Jorge, siga em frente. Fico feliz em animá-lo (êpa!) com o texto. Textos sobre a vida real snao sempre animadores.

    Amâncio, esse comentário vindo de você é um presente. Obrigado!

    Grande abraço a todos!

    ResponderExcluir
  16. A pergunta é: podemos atualizar "Aí o Pau Quebra" com esse belíssimo texto? Achei inspirador e me identifiquei com muitas partes dele. Parabéns!!!!

    ResponderExcluir
  17. Oi, Ale! Podemos sim, uai! :)
    Grande abraço!

    ResponderExcluir