Caderno de Desenhos

29 de dez de 2012

Viver é correr o risco.






Há três coisas que me deixam feliz:
  1. Desenhar minhas idéias
  2. Quando compro um livro
  3. Quando compro material de desenho

Recebi hoje meus novos pincéis e nanquim pelos correios e fico louco para usá-los.
Não me lembro se já contei pra vocês, mas quando eu era menino, eu trabalhava feito louco pra comprar material de desenho. Era a minha maior alegria. Meus amigos achavam estranho, porque a maioria deles usavam o dinheiro para comprar brinquedos.  

Imagino que se eu não viesse de uma família pobre não poderia ser um bom chargista.
Com o passar do tempo observei que a base para se criar um bom chargista é a soma de tudo: humor, leitura, conhecimento, senso critico, maturidade e... pobreza. Sim, isso mesmo. Sabe o porquê? Porque a verdadeira porrada que vemos numa boa charge (aquela que dá um “soco no estômago”, como diria o Henfil) é proporcional à indignação do chargista em relação à vida e ao mundo.
O cara que vem da pobreza vê a fome estampada na cara do outro, sente na pele – às vezes, em ambos os sentidos - as dores da discriminação e da imensa diferença social, tão gritante nesse país. Sabe das decepções de se adiar sonhos, das dificuldades em ajudar a família a criar os mais novos e cuidar dos doentes sem recurso algum, só na dependência do SUS. Isso e mais um monte de infortúnios que a vida pode proporcionar aos menos favorecidos. Alguém nascido em berço de ouro, classe alta, nunca vai saber o que é isso. 

Tenho raiva daquelas propagandas do Governo Federal e Estadual na tv onde aparecem aquele monte de pobres felizes e sorridentes. É tudo mentira. Pobre feliz, só se ganhar na Mega Sena da virada. Detalhe: sozinho! 

Outra observação: Chargista só fica bom mesmo depois dos 33 anos de idade. Místico? Não. É que aí começa a consciência de maturidade (isso se o cara não for um Peter Pan da vida e não estiver dando umas voltas pela síndrome). É por volta dessa idade que o indivíduo começa a ter a consciência de que o tempo é precioso demais e que não se deve gastá-lo com bobagens e coisas que não valem a pena.  

Bem, voltemos ao material de desenho.
Uma vez, aos 11 ou 12 anos de idade, trabalhei quatro meses para comprar uma caneta à nanquim desegraph 0.4 - era meu sonho de consumo e, na minha cabecinha inocente, era “O” material de desenho profissional. Imagine...
Comprei a caneta, levei para a escola e a perdi no mesmo dia na volta pra casa. Foi a maior tristeza da minha vida. Refiz o caminho de volta para a escola e não consegui achá-la. Foram mais quatro meses até comprar outra.

Acho que isso me abalou psicologicamente. Hoje, tenho três pranchetas (“pra quê, meu Deus?” Explico: vai que uma fura o pneu no meio de um trabalho a 200 km/h? Salto de uma pra outra num piscar de olhos!), um monte de pincéis, tintas, estoque de papel (sabe-se lá? Vai que o mundo arrasa, assim do nada como no calendário Maia ou pinta uma bomba atômica. Como é que vou desenhar na sala de espera do purgatório?) e mais um monte de coisas em dobro.
Um conhecido me disse que é por causa do meu signo. Disse ele que o geminiano tem tudo em dobro. Bobagem. Salário que é bom não entra nessa conta, né?

Abração procêis.
Rico